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Ciranda do cotidiano

 As vézes, só as vézes é como se tudo precisasse dos olhos fechados de um pouco de nada. O olho enxerga muita coisa que a alma silencia o verde parece mais verde quando você não o enxerga quando distante, os susurros de um dia monótono quando em pé, no meio de um aglomerado ou sentado em uma mesa de bar, as palavras surgem para designar a falta de freio dos olhos abertos abertos em memórias pretéritas condensados de forma furtiva no presente e cheios de vermilhadão do futuro. E tem todo o mar. e tem todas as ondas e tem você de olhos fechados.

Fosse bem mais fácil não ser

Eu penso muito em como as coisas se mechem com o vento. Penso se eu, enquanto coisa, devo me mover com o vento também, ou preciso permanecer gente e aguentar firme a forma como ele me acerta. Duro como tronco de árvore ou leve, como as folhas da planta que deixei morrer na varanda. E assim caminha os dias. Eu o vejo balançar as árvores, levar sacolas, dobrar guarda chuvas, sem pensar muito no esforço o qual ele emprega em tudo isso. Na verdade, eu preciso só pensar nele mesmo, porque pensar no vento me alivia a alma. Como se fossemos antítese: aquele que arrebate tudo sem avisar ou pedir licença e o outro, que só observa e é atingido, vez em quando, pelas coisas que ele movimenta. De certa forma, me sinto meio vento, mas como aprendi a sintetizar meus sentimentos antes de me denominar qualquer coisa que seja, eu me sinto vento na forma. As vezes dissipo. As vezes me esvaio. As vezes nem apareço. E como o vento é parte de uma manifestação múltipla da natureza, que requer outros derivado...

Oportunidades para um pequeno desespero

Tudo girou de novo. Fazia tempo que não me via em espiral relativizando tudo, não aconteceu muita coisa perdido entre pés, mãos, cabeças, línguas, fluídos corporais de toda espécie revisitei por um breve instante o meu reflexo no espelho do banheiro embaçado pela orgia e pela fumaça estive de fora, estive na mira, depois me perdi agora estou preso a caça, agora essa caçada é só um tapete em pedaços. só uma paródia de mim.  mas é só o álcool falando. enquanto eu escutava músicas desconexas de um quarto a outro ecoando como dezenas de animas famintos rodopiava em alguma espécie de robe de seda, e acendendo mais um cigarro  revisitei aquela história do psiquiatra de Pernambuco que, para se conectar consigo mesmo e tentar para de fumar plantava bananeira enquanto fumava dizia não sentir a fumaça permanecendo  tudo isso lendo Jung.  A loucura do ser humano está diretamente ligada a busca pela sanidade  mas quem sou eu pra ser são, antes de enlouquecer? mas quem sou e...

Chama

Um mestre do verso, de olhar destemido,disse uma vez, com certa ironia : "Se lágrima fosse de pedra eu choraria"  Mas eu, Boca, como sempre perdido  Bêbado de sambas e tantos sonhos  Choro a lágrima comum, que todos choram  Embora não tenha, nessas horas, Saudade do passado,  remorso ou mágoas menores  Meu choro, Boca, dolente, por questão de estilo,  É chula quase raiada, solo espontâneo e rude  De um samba nunca terminado  Um rio de murmúrios da memória de meus olhos,  e quando aflora serve, antes de tudo,  Para aliviar o peso das palavras  Que ninguém é de pedra.
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Fosse bem melhor não ser nós dois Que sonhar não era ser concreto assim Eu vou te guardar em tudo que não foi Mas que eu tanto fui, eu tanto quis E eu preciso tanto das pessoas Eu preciso tanto disso Meu submarino sou eu Minha força de sonhar sou eu também Porque quando todos vão embora Eu me tranco aqui, e tudo bem Outra viagem para me colorir Para gostar de alguém E o fundo das coisas pra me enganar Pra não existir mais Os bares fechados pra nós As horas correndo Os cursos mudando pra nós Pessoas mudando As portas fechando pra nós Os olhos abertos.

Galos, Noites e Quintais

Um dia eu sofri muito. e estaria mentindo por dizer que hoje não. Mas a idade trouxe perspectiva. O cenário político trouxe perspectiva. Hoje eu me permito existir sem o peso centenário que pernsava carregar mensuro as tristezas por suas dimensões: Tristezas brandas eu curo com uma banda de melancia; Tristezas medianas eu afogo em livros; Tristezas maiores, eu escrevo ou deixo pra lá, se muito nefastas; Tristezas relativas, eu luto. E assim segue a vida de cachoeira em cachoeira sem derramar mais lágrimas quero ser alegre como um rio um bicho, um bando de pardais como um galo, quando havia quando havia galos, noites e quintais. Não há mais tempo negro e, a força, fez comigo o mal que a força sempre faz mas sou feliz, pois não sou mudo hoje eu canto muito mais.

Quase trinta

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Eu não sei o que acontece com vocês dessa cidade sem coração, sem hombridade mas com malícia e jogo de cintura. São acinzentados pelo céu fechado ou pela distância permanente de quase tudo. Vez em quando eu me aventuro por aí cativado por mais um aprisionado experimento novamente o coração das paralelas e a velocidade dos carros parados. Dessa vez, foi você. Um universo diferente. Enquanto dedilhava mais uma música pra mim no teclado levantava duas vezes ambas as sobrancelhas ossudas e revelava novamente o par de olhos mais verdes que eu jamais vira. Entre goles e mais goles, algumas músicas e várias gozadas você me contou que ainda era um “menino” com seus quase trinta o que me assustou. Como alguém por aí consegue manter-se   vivo sendo um “menino” ? Não tinha a resposta, mas seus olhos logo me distraíram da pergunta e revezando voltas velozes de carro transávamos novamente Como um bom amor de carnaval. Porém, a medida que eu ...

Betelgeuse

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Os dias e as noites Guiam meus olhos aos extremos da minha própria existência Enquanto pinto paredes pra sobreviver ao vazio dos domingos Meu peito ecoa mil canções lunares Constelações inteiras, supernovas, explosões incandescentes Nada permanece intacto, tudo é renovado Creio na luz etérea Das estrelas que já se dissiparam Como acredito nas batidas lentas do meu coração a cada pincelada Betelgeuse: braço do centro O brilho eterno de uma estrela em decadência.